Capitão Fantástico (2016)

27 - 12 - 2016 / Gabriel Cardoso Bom

Título original: Captain Fantastic
País de origem:
Estados Unidos
Gênero: Dramédia
Duração:
118 minutos
Distribuidora:
Universal
Direção e Roteiro:
Matt Ross
Elenco: 
Viggo Mortensen, George MacKay, Samantha Isler, Annalise Basso, Nicholas Hamilton, Shree Cooks, Charlie Shotwell, Trin Miller, Kathryn Han,Steven Zahn e Frank Langella.

Olá, pessoal. Após uma pausa de algumas semanas devido ao encerramento do semestre, retomamos as atividades no site. Trago a vocês hoje uma reflexão que se categoriza no tema dO Longa das Aulas, nossa sessão de cinema do site. Venho falar sobre um filme que está pré-concorrendo ao Oscar de 2017, que acabei de assistir.

Um sinopse básica: Ben e Leslie constituem família e, impulsionados por sua ideologia libertária, mudam-se para o interior dos Estados Unidos, numa reserva florestal. Porém, a esposa de Ben sofre de uma doença e acaba morrendo devido às complicações geradas pela mesma. Isso faz com que Ben tenha que enfrentar a família da esposa, que não aceita muito bem o estilo de vida que eles decidiram.

Um primeiro disclainer: vou procurar nessa análise trazer algumas reflexões educacionais que o filme traz e propor um pensamento final sobre a utilização do mesmo em sala de aula. Farei posteriormente uma outra análise, mais “filosófica” e analítica da mesma. Mas, já adiantando, não recomendo que passem o filme todo pois o mesmo tem um ritmo completamente sutil, cadenciado e de difícil apreensão. A atenção total é pré-requisito para uma apreciação plena do mesmo. Além de ser um filme que requer grande bagagem filosófica e literária.

O filme é recheado de referências a autores, literatos, obras literárias e teorias científicas que dão um brilho no olhar de qualquer pessoa mais interessada no pensamento humano – no caso, eu me encaixo nesse perfil. Porém, essa camada é superficial e esconde uma trama que é exemplar de um processo de domesticação no sentido foucaultiano do termo. Mas essa domesticação não é simples e autoritária: é um processo de reconhecimento das limitações da utopia, transformando uma eco-utopia pré-citadina (que lembra a utopia romântica alencariana, por exemplo) em uma utopia ordenada, tranquila e platônica (uma grande salada entre Platão, Paulo Freire e Noam Chomsky).

O que nos interessa nessa reflexão é a parte de Platão: o filme caminha entre um primeiro momento de utopia selvagem, intelectualizada. Os meninos se viram na selva, treinam, caçam, conseguem se virar sozinhos – e ainda têm tempo de ler, estudar, debater e ainda aprender instrumentos. É a perfeita harmonia entre o selvagem e o filósofo. O segundo momento do filme é a curta road trip que a família faz para encontrar e celebrar a morte da mãe: momento de encontro dessa utopia selvagem com o mundo – a cena do contato das crianças com o videogame e a posterior, da Declaração dos Direitos, são sensíveis a isso. Por fim, após um terceiro ato de conflito e separação, o final do filme se encaminha para um novo modus operandi da utopia de Ben e Leslie: ela é mais racional, ordenada, quase proudhoniana – no sentido de ser uma anarquia operativa.

A referência à República de Platão não é jogada: aquelas crianças serão filósofos-reis. A utopia política platônica encaixa-se no final do filme como uma luva e, em apenas 3 ou 4 minutos que a cena final se desenrola, está ali prostrada a imagem da ordem platônica: não-hierárquica (principal diferença para com Aristóteles), onde todos os espaços têm sua função (a ordem aristotélica é temporal, enquanto a platônica é espacial) e que, no final, tudo é regido através do logos.

Por isso, sem dúvida nenhuma, esses últimos trechos do filme podem muito bem ser utilizados enquanto material de apoio ao tratar do assunto. A pintura em tela final é a utopia platônica transposta na sua frente.

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