Trilogia “O Século” de Ken Follett

14 - 11 - 2016 / Gabriel Cardoso Bom

Referência bibliográfica: 

FOLLETT, Ken. Queda de Gigantes, tradução de Fernanda Abreu. Rio de Janeiro: Sextante, 2010.
FOLLETT, Ken. Inverno do Mundo, tradução de Fernanda Abreu. São Paulo: Arqueiro, 2012.
FOLLETT, Ken. Eternidade por um Fio, tradução de Fernanda Abreu. São Paulo: Arqueiro, 2014.

Olá, pessoal. Introduzindo essa nova área do nosso site, venho apresentar a primeira resenha do Giz em Páginas! Nessa área do site nós vamos apresentar textos reflexivos sobre obras literárias, sejam elas ficcionais ou até acadêmicas. Lembrando que esses textos sempre serão voltados à educação: como utilizar os recursos, conceitos – ou até mesmo os próprios livros – dentro da sala de aula.

E hoje apresentarei a vocês a trilogia O Século do renomado autor de romances históricos Ken Follett. Nós historiadores normalmente temos os dois pés atrás com romances históricos, por vários motivos: idealização do passado (que é algo que nós sempre evitamos), incongruências históricas. Mas, não é por esse motivo que os romances históricos são descartáveis e, pelo contrário, um bom romance histórico pode ajudar e muito aos professores. Como? É o que irei propor nesse texto.

Basicamente, a trilogia é fechada em três períodos históricos, um para cada livro: o primeiro focado na Primeira Guerra Mundial (o recorte histórico vai de 1905 até mais ou menos 1920); o segundo focado na Segunda Guerra Mundial (com um recorte que vai de 1928 até mais ou menos 1950); e, por fim, um recortado durante a Guerra Fria (mais ou menos de 1960 até 1990). São períodos longos de tempo, onde a narrativa nos apresenta basicamente cinco famílias – que vão se encontrar, criar novos laços familiares, dentre outras coisas. Essas famílias são:

  • Dewar: família de democratas estadunidenses, com uma longa tradição política. Os Dewar normalmente conseguem cargos no Senado e fazem parte dos governos democratas dos Estados Unidos.
  • Fitzherbert: família aristocrática anglo-escocesa, que tem terras e minas de carvão em Gales. São membros da Câmara dos Lordes e alinhados ao Partido Conservador inglês.
  • von Ulrich: família aristocrática alemã, que ascendeu ao poder junto de Otto von Bismarck na década de 1880.
  • Peshkov: família extremamente pobre de russos, que vão para São Petesburgo durante a industrialização da Rússia no final do século XIX.
  • Williams: família de mineradores galeses que trabalha na mina dos Fitzherbert.

É interessante notar como os caminhos dessas famílias se entrelaçam durante o século XX: desde a filha da família Williams que vai pra Londres depois de engravidar do dono da mansão dos Fitzherbert – no caso, o próprio Fitz -; até os caminhos completamente diferentes que os irmãos Peshkov – enquanto Lev foge para os EUA, o irmão Grigori acaba ficando na Rússia e participa da Revolução de Outubro.

Particularmente, eu gosto muito desses livros. Apesar de alguns elementos de “panos quentes” que o autor se utiliza, é um livro extremamente interessante por dois motivos básicos: o caráter processual que se nota dele e os tipos sociais que o autor se utilizou para compor a trama.

Parece um estudo sociológico no tempo – bem parecido com o método de Norbert Elias em seu O Processo Civilizador, outro livro recomendadíssimo, mas de um garbo acadêmico maior -, e num tempo em que as coisas estavam mudando muito rápido. A grande transformação do mundo é clara nos personagens: em determinado momento do terceiro livro, Ethel é membro da Câmara dos Lordes – a filha dos carvoeiros.

Os personagens se envolvem com grandes figuras históricas – David Lloyd George, Lênin, o presidente Roosevelt, Nikita Kruschev, Woodrow Wilson, Harry Truman. O rigor histórico do autor é essencial para a obra, os personagens históricos que aparecem ou realmente falaram aquilo nominalmente, ou então, pelo menos, o escreveram em cartas e\ou escritos oficiais. Apesar disso, a noção de que se dá pra mudar a história do mundo é presente, palatável e complexa: e, nesse período histórico, a mudança era regra. De mudanças sutis e culturais – de democratas conservadores para uma ação mais efetiva dos democratas enquanto liberais – a mudanças mais profundas e complexas – a atuação feminista de Maud no início do século XX permite que Evie Williams possa optar por não ser política.

Uma dificuldade que os alunos têm para estudar esse período é a falta de noção de mudança e da profundidade das transformações que o século XX nos proporcionou. É difícil em poucas aulas mostrar a complexidade desses movimentos. É difícil mostrar o caráter popular das revoluções – principalmente a da Rússia -, a mudança de comportamentos da década de 60 e de 70, como os sistemas autoritários agiram na Alemanha – seja o regime de extrema direita, nazista, e o de extrema esquerda, comunista¹ – e outros elementos do cotidiano que são difíceis de se apreender. Ken Follett consegue de uma maneira extremamente gostosa de se ler essa façanha.

Recomendo e muito a utilização dos livros em sala de aula, apesar da grossura dos livros. São cerca de 600 páginas cada um. Mas um trabalho de análise das partes mais fundamentais, ou até algum tipo de trabalho que delimite os temas – dividir a turma em 5 grupos e cada um ler e apresentar os contextos e histórias de uma das famílias, por exemplo – pode tornar-se uma proposta interessante.

Por fim, fica a recomendação. São três livros densos, mas de leitura fácil e rápida. Quando eu pego pra ler, não demoro uma semana em cada um; e tem um bom fato de releitura. Facilmente recomendado, tanto pra alunos quanto pra professores.


¹O comunismo alemão foi notadamente mais violento, autoritário e radical do que o russo. Alguns elementos do governo autoritário alemão podem ser relacionados com uma continuidade do autoritarismo nazista anterior.

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