Resolução: História na Vunesp 2017

15 - 11 - 2016 / Gabriel Cardoso Bom

Olá, pessoal.

Ontem (13 de novembro de 2016) foi a primeira fase do vestibular da Vunesp 2017, que garante vagas para a Universidade Estadual de São Paulo “Júlio de Mesquita” (UNESP), que tem cursos espalhados em várias cidades do estado de São Paulo. São 24 campi espalhados em 21 municípios do interior, um na cidade de São Paulo e um na cidade de São Vicente, no litoral paulista (minha terrinha, por sinal).

A prova de vestibular da Unesp é realizada pela Vunesp (Fundação para o Vestibular da Unesp), que realiza também provas para outros tipos de concurso, incluindo universidades particulares – principalmente provas de medicina, como a da Anhembi Morumbi – e públicas – como algumas estaduais de todo o Brasil. A prova da Unesp em si tem por característica central uma prova que traz os conteúdos do vestibular sem se deixar cair no conteudismo.

Esse ano de 2017 a prova trouxe alguns conceitos mais obscuros, mas manteve as suas tradições: uma novidade foi trazer uma questão sobre Antiguidade, mas não deixou de trabalhar Renascimento ou questões mais polêmicas, como a Guerra do Paraguai. Segue-se um pequeno comentário sobre cada questão da prova de História desse ano:

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Começando com uma novidade na prova da Unesp: normalmente a prova da Unesp não leva em consideração muitas coisas anteriores ao século XVI. É raro que caia algo de Roma ou de Idade Média, mas esse ano foi exceção, trazendo um texto de Moses Finley sobre a Grécia.

Como a nossa intenção no site é aproximar Academia do Ensino Básico, gostaria de introduzir o trabalho acadêmico de Moses Finley: um dos principais nomes da teoria primitivista da historiografia da Antiguidade, que tende a pensar que os valores morais e éticos contavam muito mais para as decisões econômicas de períodos pré-capitalistas do que a racionalidade econômica. Um dos principais estudiosos do tema no Brasil é o professor Marcelo Cândido da USP, que estuda a economia na Alta Idade Média merovíngia e carolíngia (o professor Marcelo Cândido oferece uma disciplina para o curso de graduação em História da USP cujo tema é esse, e a ementa pode ser encontra nesse link).

Para além disso, a questão é simples e não exige tanto de conteúdo além do que pode ser facilmente interpretado através do texto. A Grécia enquanto unidade civilizacional (único país, por exemplo) é um conceito que não existe no período da Antiguidade. Por isso, é difícil de se falar de uma “Civilização Grega” e prefere-se, particularmente, algo mais genérico, como a denominação de um Mundo Grego. Sabendo disso e seguindo a lógica do texto apresentado, o aluno assinala facilmente a alternativa (d).

 

screenhunter_194-nov-14-11-01 A questão 32 traz um texto do renomado historiador marxista Perry Anderson. Focado em vários estudos durante sua longa carreira, atualmente o autor trabalha com as questões atuais do marxismo (em obras como A Crise da Crise do MarxismoAs Origens do Pós-Modernismo). Mas sua obra mais reconhecida é quando o autor traça um panorama histórico amplo de formação do Estado Moderno. Anderson traz em suas duas mais reconhecidas obras (Linhagens do Estado Absolutista Passagens da Antiguidade para o Feudalismo) um longuíssimo processo histórico de formação dos Estados absolutistas dos séculos XVII e XVIII.

No texto apresentado na questão, o problema apresentado é a função da Igreja Católica no contexto do final do Império Romano. Novamente uma questão que foge do aspecto característico da prova da Vunesp, mas que traz a interpretação de texto como principal fiel da balança para o candidato. Assim, tendo o básico do conhecimento, o candidato consegue perceber que a alternativa (a) é a correta – principalmente pelo absurdo que as outras alternativas nos traz.

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E então a Vunesp nos mostra uma das questões mais interessantes sobre Renascimento feitas nos últimos tempos. Um quadro de um pintor menos conhecido, Andrea Mantegna – que inclusive tem um quadro exposto no MASP -, pintor italiano que viveu entre 1431 e 1506, que provavelmente foi o pintor mais importante do Quatrocento italiano.

O quadro Lamentazione sui Cristo morto mostra uma perspectiva diferente de visão do corpo de Cristo da que normalmente se via na Idade Média. Uma das características mais impressionantes dessa obra é o fato de os pés de Cristo guiam a perspectiva do quadro, que se movimenta conforme o observador se movimenta ao redor do quadro. Essa é uma das principais características da obra: a perspectiva geométrica utilizada para a realização da mesma.

Além disso, os detalhes anatômicos tanto do corpo de Jesus Cristo – aproximando o Cristo-Deus dos homens, caráter básico da arte antropocêntrica do renascentismo – quanto dos lamentantes – que, aliás, não são figuras bíblicas conhecidas, demonstrando que qualquer um pode se lamentar por Cristo. E a figura de Jesus é utilizada para nos lembrar justamente de que o Renascimento em momento algum é um movimento anticlerical ou anticristão: justamente o humanismo cristão do final do século XV e início do século XVI é um dos principais apoiadores teórico-filosóficos para os ideais renascentistas.

Pensando todas essas características, o candidato finalmente assinala a alternativa (c).

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Seguindo em frente, a prova da Unesp nos traz um dos textos mais clássicos da historiografia brasileira, de Sérgio Buarque de Holanda, um dos principais pensadores e historiadores brasileiros do século XX. Junto com Caio Prado Jr. e Gilberto Freyre forma uma tríade de historiadores que pautaram todas as discussões sobre a história do Brasil que se realizaram no século passado.

A obra de Sérgio Buarque de Holanda é extremamente densa e traz uma gama de variedades que não nos cabe agora. Quando organizou a História da Civilização Brasileira o autor montou uma verdadeira rede de contatos. Os livros, divididos em vários tomos, têm escritos de vários historiadores importantes para a historiografia nacional. Nesse texto clássico, o pai de Chico Buarque nos leva a pensar nas transformações que a exploração de ouro no Brasil do século XVIII causou.

Transformações tanto econômicas como sociais, e é bom notar que o excerto trazido deixa isso bem claro: além da mudança do eixo econômico, com uma maior integração da economia colonial (um trabalho que é necessário para entender isso é o de Mafalda Zemella, O abastecimento da capitania das Minas Gerais no século XVIII), houve mudança na organização social da colônia. As camadas médias e urbanas crescem em tamanho, criando uma série de novas classes e profissões que o autor expõe em seu texto. Tudo isso leva o candidato a marcar a alternativa (c).

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Octavio Paz foi um poeta e ensaísta mexicano que viveu durante todo o século XX, vencedor de um prêmio Nobel. Assim como Eduardo Galeano, o autor pensou a América Latina em seus dados filosóficos, sociais e culturais. A obra citada está disponível inteira aqui neste link, só que em espanhol. Recomendo a leitura.

Toda a reflexão do trecho citado nos leva a lembrar os dois grandes movimentos independentistas do início do século XIX na América: os movimentos liderados por San Martín e os movimentos liderados por Simon Bolívar. Os dados biográficos dos dois autores são interessantes para entender esse conflito entre utopia e oligarquia que o texto de Octavio Paz nos apresenta:

José de San Martín (1778-1850) foi um general tenente-coronel da Espanha durante o contexto das Guerras Napoleônicas (1801-1815). Nascido em uma região do que seria hoje a Argentina, era filho de um militar espanhol com a filha de um conquistador do Paraguai. Atuou nas guerras de resistência espanhola contra as forças napoleônicas na primeira década do século XIX. Já Simón Bolívar (1783-1830) foi filho de um general espanhol em Caracas, atual Venezuela, que teve durante a sua criação a influência de humanistas e pedagogos (destacam-se as figuras de Simón Rodríguez, Alexander von Humboldt e Andrés Bello) que o influenciaram. Viajou para a Europa e para os Estados Unidos afim de aumentar os seus conhecimentos, onde entrou em contato com toda a juventude romântica europeia e os ideais republicanos estadunidenses.

Os dois apresentaram à América projetos distintos para a Independência. Bolívar apresentou, pautado nos movimentos utópicos do início do século XX (o livro As Utopias Românticas do professor Elias Thomé Saliba sobre o período é incrível e muito esclarecedor), um ideal utópico e filosófico de união latino-americana em torno da própria figura, projeto este que acabou vencendo com a criação da Grã-Colombia e da República da América Central – que acabou sendo derrotado na Colômbia em 1831 (e, posteriormente em 1886, dos Estados Unidos da Colômbia em República da Colômbia e República do Panamá) e na América Central em 1839. Já o projeto de San Martín, além de um caráter mais pragmático, também apresentou grande influência das elites nativas no controle dos projetos republicanos e independentes. As novas repúblicas formadas (Argentina, Chile, Peru, Bolívia, Equador e etc.) seriam controladas politicamente pelas antigas elites durante todo o século XIX e XX. A alternativa correta é a (d).

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Aqui o vestibular da Unesp traz uma questão extremamente conceitual e conteudista: o candidato deve saber o que significa esse conceito do “Destino Manifesto”.

O Destino Manifesto foi a justificação religiosa e ideológica que os estadunidenses utilizaram para a expansão do seu território pela América. Quando diz-se que é religiosa, parte-se da noção teológica calvinista de que todo o destino já está traçado, e, através dos dons, os abençoados e as bênçãos manifestam-se, demonstrando que tal pessoa – ou, no caço, nação – é escolhida e vai ter um destino positivo. Um trabalho fundamental sobre o período  é o de Max Weber chamado A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.

Simplesmente, assinalar a alterna (e) e correr pro abraço é o que o candidato deve fazer.

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Nessa questão, a prova, ao tratar da Guerra do Paraguai (1864 – 1870), foge da principal questão abordada quando se trata desse tema, que é o debate historiográfico que se deu após a guerra: qual o caráter dela? Foi uma demonstração do imperialismo inglês ou então realmente um caso de forças locais lidando com uma força emergente nova? Sobre o tema, recomendo o filme “Netto perde sua alma”, do diretor Tabajara Ruas, disponível online no YouTube.

Aqui, o candidato devia analisar os motivos básicos da participação brasileira. Como apontado por Francisco Doratioto e por trabalhos como os da professora Miriam Dolhnikoff – que analisa a formação do Estado brasileiro como um pacto federativo durante o século XIX -, que analisam as relações internacionais da América do Sul no século XIX como uma série de forças políticas que agem em Estados que ainda não se formaram completamente. A unidade de países como Brasil e Argentina era constantemente contestada, como nas revoltas provinciais (Farroupilha, Cabanagem, etc) e de outras revoltas como Entrerrios e Corrientes, na Argentina.

Nesse interim, uma maior integração das províncias interiorianas facilitaria ao processo de consolidação da unidade política. Portanto, ao vencer o Paraguai e consolidar essa unidade, a alternativa (c) deveria ser assinalada.

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screenhunter_201-nov-15-20-23screenhunter_202-nov-15-20-23Essas duas questões mexem com aspectos da história econômica do Brasil no período do início do século XX até seus meados. Uma obra fundamental e seminal é a de Boris Fausto, como o volume 11 da História Geral da Civilização Brasileira, que trata de aspectos econômicos e culturais do Brasil republicano.

A questão 38 é simples interpretação de texto: o candidato deveria assinalar a alternativa (d); a questão 39 cai no Plano de Metas de Juscelino Kubitschek, que era um plano do governo de união e estabilidade. O Estado brasileiro apoiava-se no capital estrangeiro e em empresas estatais para criar um meio de crescimento econômico. Logo, a alternativa correta, é a letra (a).

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Uma questão interessante encerra a prova de história, sobre o Plebiscito sobre a forma e o sistema de governo do Brasil de 1963, perante o que chama-se na historiografia da crise institucional do Estado nos anos 1960. Dentro de um período conturbado entre o fim da ditadura varguista em 1945 até o golpe de Estado de 1964, houve uma série crise institucional no Brasil que levou à Ditadura militar.

O plebiscito de 63 ocorre num período de instabilidade política gravíssimo: após a renúncia de Jânio Quadros, em 1961, João Goulart assume o posto de presidente da república – enquanto vice-presidente eleito diretamente pelo voto popular – e encontra grande resistência dos parlamentares mais conservadores e liberais (no sentido econômico) ligados a setores privatistas e do capital internacional. João Goulart era um política que seguia a tradição trabalhista de Getúlio Vargas, e que insistia num programa de reformas sociais para estimular o desenvolvimento de uma maneira que fosse boa para todas as classes sociais.

É importante notar que há uma grande confusão teórica sobre esse período e essas figuras: nem o varguismo, nem o trabalhismo que pregava João Goulart e, posteriormente, irá pregar Leonel Brizola, são ideias de governo, política e economia que vão de encontro ao pensamento capitalista. São pensamentos que se aproximam ao que se chama de “socialismo reformista” ou “social-democracia”. Pensamentos que pegam o conceito de crise para Marx – que, segundo o professor Jorge Grespan, é utilizado muito apropriadamente no contexto de crítica à economia política, principalmente a Davi Ricardo – e expandem o conceito de mudança econômica e política. Atingir o socialismo através da reforma e não da revolução é o mote principal – o próprio Marx encerra sua carreira política, atuando na Internacional, contra os reformistas.

No contexto do início da década de 1960, João Goulart sofre um “golpe branco” do Parlamento brasileiro, que institui o parlamentarismo ao governo brasileiro após uma série de contestações à posse de Jango por parte de generais brasileiros. João Goulart manter-se-ia enquanto chefe de Estado – o representante oficial do Brasil internacionalmente, mas com pouca ou nenhuma autonomia na política interna – e haveria um chefe de governo escolhido pelo Parlamento, que controlaria toda a política interna – os primeiros-ministros foram, em ordem: Tancredo Neves, Brocado da Rocha e Hermes Lima.

Porém, João Goulart e Leonel Brizola – parceiro político e cunhado de Jango – fizeram uma série de campanhas pelo Brasil para apoiar a volta do presidencialismo. Campanha pautada no discurso das Reformas de Base, que faziam extremo sucesso politicamente, principalmente entre os sindicalistas e os pequenos agricultores. A partir desse conturbado contexto, o candidato que assinalasse a alternativa (b) sairia com a questão correta.


Bibliografia:
ANDERSON, Perry. Passages from Antiquity to Feudalism, 1974, e Lineages of the Absolutist State, 1974. Ambos com edições em português.
BUSHNELL, David (ed.). Simón Bolívar, el libertador. New York: Oxford University Press, 2003.
DOLHNIKOFF, Miriam. Construindo o Brasil: unidade nacional e pacto federativo nos projetos das elites (1820-1842). Tese de doutorado. São Paulo: 2000.
DORATIOTO, Francisco. Maldita guerra. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
FAUSTO, Boris; HOLANDA, Sérgio Buarque de (orgs.). O Brasil republicano: economia e cultura (1930-1964), volume 11 da coleção História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo: Editora Bertrand Brasil, 2000.
GALASSO, Norberto. “Seamos libres y los demás no importa nada”, uma biografia de José de San Martín.
GRESPAN, Jorge. O negativo de Marx: o conceito de crise na crítica de Marx à economia política. São Paulo: Hucitec \ FAPESP, 2009.
MANCA, Joseph. Andrea Mantegna and the Italian Renaissance, 2006.
MELO, Demian Bezerra de. O Plebiscito de 1963: inflexão de forças na crise orgânica dos anos sessenta. Dissertação (Mestrado). Niterói (RJ): 2009. Disponível aqui.
NICODEMO, Thiago Lima. “Os planos de historicidade na interpretação do Brasil de Sérgio Buarque de Holanda”. Revista de História da Historiografia, n. 14. Ouro Preto (MG): 2014, pp. 44-61. Disponível aqui.
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SALIBA, Elias Thomé. As Utopias Românticas. 2. ed. São Paulo: Estação Liberdade, 2003.
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TAMBARA, Ana Cláudia. “Teorias modernista e primitivista: duas perspectivas para a compreensão do passado greco-romano. Uma introdução ao debate”. Mimesis, v. 19, n. 1. Bauru (SP): 1998, pp. 143-149. Disponível aqui.
WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, tradução de José Marcos Mariani de Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
ZEMELLA, Mafalda P. O abastecimento capitania das Minas Gerais no século XVIII. São Paulo: Hucitec, 1990.

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