Política e Educação

28 - 10 - 2016 / Gabriel Cardoso Bom

Enquanto no outro texto desse site, o Caio propôs uma reflexão de como o educador deve se utilizar de seus artifícios pedagógicos para a criação de uma consciência política. Dentro do nosso sistema político republicano e democrático, o fazer político é diário e a Democracia nos sufoca profundamente. Para que nós não deixemos escapar essa capacidade política diária, proponho uma reflexão que vai no caminho inverso da que Caio fez: como a política pode nos ajudar a pensar a educação.

Inicio esse pequeno artigo com a apresentação de uma proposta que tanto é política quanto pedagógica: a proposta de Erasmo de Roterdã em seu livro De Pueris (Dos Meninos). Gosto desse livro por ele ser fácil de achar (a versão que eu tenho comprei por R$01,00 no metrô de São Paulo) e por deixar claro a sua proposta: é um manual para a educação dos meninos, onde todo o processo educativo está pautado pelo Humanismo – principal corrente cultural da época, o início do século XVI.

Meu grande interesse na Idade Moderna é claro e visível a todos que me conhecem mais de perto, por isso não me eximo de dar um panorama contextual ao livro: as renovações do pensamento pautadas pelo Renascimento e pela eferverscência cultural do século XV geram o Humanismo. Retomada dos pensamentos clássicos da Antiguidade greco-romana (mais grega para Erasmo, mais romana para Maquiavel), o humanismo pauta a centralidade do homem na obra de Deus (o antropocentrismo) e da sua razão como constitutiva de um entender do mundo.

O ensaio de Erasmo sobre a educação aponta as funções de educadores e pais na constituição civil dos meninos. O mais impressionante é o desnivelamento que Erasmo impõe à educação e a função central do educador. Vejamos:

“Não vou, aqui, eminente amigo, aquecer-te a memória com lugares-comuns. Basta ver. Quanta força na natureza, quanto devotamento, quantas leis divinas e instituições humanas a compelirem os pais para os deveres em face dos filhos que, de certo modo, fazem-nos vencer a mortalidade, tornando-os imortais.

No entanto alguns julgam ter realizado, à maravilha, sua missão paterna só porque respondem pelo ato gerativo, quando isso representa o mínimo do amor exigido pelo título da paternidade.

Para seres pai autêntico deves dar dedicação plena ao filho por inteiro, sendo que a primazia absoluta desse empenho recai sobre aquela parte que o sobrepõe aos animais e aproxima-o, bem de perto, da semelhança com a divindade.”

Erasmo de Roterdã. De Pueris (Dos Meninos), página 28.

A criança tem potencial para atingir o divino e diferenciar-se do animal – concepção aristotélica retomada por Erasmo – e, quando o autor ressalta a necessidade da confluência de quatro elementos (força da natureza, devotamento, leis divinas e instituições humanas) para a realização plena dos filhos, está nos mostrando os elementos que formam o Homem para Erasmo. Nosso foco é o elemento final: as instituições humanas são constitutivas desse processo.

Instituições humanas pautadas pela arte da política. Assim, a política separa-se da teologia. Para os nossos objetivos nesse breve artigo, o que me parece ficar claro a partir do proposto por Erasmo é a importância da política para a educação – e a importância da educação para a constituição plena do ser humano.

Concluindo: além da importância da educação para a formação do indivíduo – do ensino da política com esse intuito – temos que ter claro também a importância da política para a formação do educador. A filosofia política, de Aristóteles a Marx, Weber e Hannah Arendt deve fornecer meios de atuação profissional para os educadores.

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